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Afeto em tempos de crise

As dinâmicas de comunicação atualmente ocorrem de forma mais fragmentada, em um ambiente tecnológico pelo qual múltiplas informações, produtos, serviços e marcas circulam em um “ciberespaço”, através de uma rede de indivíduos e organizações que estão conectadas a todo momento e sem pausa. Neste cenário, através do olhar do consumo e da comunicação, os significados dos bens transitam amplamente, sendo manipulados pelas estratégias de marcas e pelas ações dos consumidores.

Quando partimos do pressuposto que o consumo é um processo simbólico, do qual o consumidor utiliza os bens para a sua construção identitária, as marcas, para terem um papel mais relevante e com maior apropriação destes significados adotam – ou deveriam adotar – um discurso e uma estratégia de comunicação focadas na proximidade, com o objetivo de influenciar o consumidor e aproveitar seu crescente poder de auto-expressão.

No momento atual de quarentena, onde ficamos restritos ao contato quase que 100% digital, é necessário destacar que existem dois tipos de comunicação, e essa divisão não é só perceptível como também simbólica. O verbal, que se compõe do texto, da fala, do que está claro e nítido – às vezes – no que está sendo dito, e o não verbal que torna-se um emaranhado oculto de diversos tipos de signos. A comunicação presencial, o face to face, propõe para nós uma ação quase que oculta dos nossos canais perceptivos e seus vários sistemas de signos: a expressão do olhar, os movimentos corporais, a tensão ou distensão da postura, gestualidade, entonação, timbre, volume da voz, ritmo e a cadência do falar em total harmonia com a corporalidade, entre outros. O que cria-se nesses momentos são concentrados de signos e sinais, que acionam as nossas reações afetivas e emocionais. No cenário tomado pelo digital, tudo isso fica praticamente reduzido à imagem, ao texto, a interpretação totalmente influenciada apenas pela pessoa/consumidor que está recebendo a informação. No caso das lives, são os seres, enquadrados em uma caixinha visual e à voz maquinal, quando não uma ou outra. As marcas, que podiam recorrer as ações de experiências presenciais, perdem o seu maior poder não verbal, e aquele enxame semiótico que funciona de modo tão intuitivo para gerar emoções e laços, fica fraco e quase se perde.

Quanto mais frio for o meio, maior é a participação comunicativa. No online, o meio é completamente quente pois é totalmente concentrado na maioria das vezes em um único canal sensorial, o visual, que hora ou outra é acompanhado pela voz, salvando um pouco essa semiose.

Porém, a falta de não verbal no ambiente digital pode ser sanada, não em sua totalidade, mas em parcialidade, pela utilização dos emojis ou reações. Estes, dão as palavras e a interpretação do outro a emoção e o signo que passaríamos caso estivéssemos ali, frente a frente.

Os emojis, apesar de serem contemporâneos, são elementos visuais que surgiram no Japão da década de 1990, com a criação de um conjunto de desenhos que pudessem ser utilizados em mensagens instantâneas. Desta forma, foi possível trazer características a concisão visual e a rápida transmissão de significados convencionais. A popularização de fato veio em 2011, quando foram introduzidos nos aparelhos IOs. Atualmente estima-se que mais de 6 bilhões de emojis são enviadas diariamente no mundo via aplicativos móveis. Eles adicionam emotividade ao texto escrito, resgatando os signos que se perdem quando não há comunicação não verba.

Na onda dos emojis, as reações das redes digitais também tem seu papel importante para a demonstração de afetos nesses tempos de isolamento. De acordo com o Facebook, as reações que são disponibilizadas por tempo determinados, como o “força”, tem como intuito demonstrar apoio aos familiares e amigos durante a Covid-19, principalmente porque em momento de isolamento, diversas pessoas ao redor do mundo estão relatando, cada vez com maior frequência, o estado psicológico negativo da solidão e da tristeza.

De acordo com a neurociência, é o apoio social que mantém as pessoas sãs durante períodos de estresse. Psicólogos e estudiosos das áreas da saúde mental recomenda que as pessoas apoiem amigos e familiares para lidar, de maneira fácil, com situações que fogem do controle. Para o Facebook, a nova reação é uma forma de garantir que os usuários da plataforma permaneçam conectas emocionalmente em meio a pandemia com seus entes queridos.

Em momentos como o que estamos enfrentando, cabe compreender que a comunicação não verbal tem um papel fundamental na relação do afeto, e mesmo que neste instante ela não possa ser utilizada carregando todos os seus signos de forma nebulosa e pouco perceptível à nós, os meios digitais evoluíram o suficiente para que possamos, através de suas redes quentes que não despertam tanto calor, expormos de forma imagética as emoções simbólicas e o afeto através do verbal. Cabe as marcas e as pessoas, usarem destas artimanhas linguisticas de forma consciente – estrategicamente e taticamente – e humana, para estreitarem seus laços emocionais e transferirem valores e signos aos seus amigos e consumidores.

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