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Liberdade do Eu e a teoria do corpo sem órgão

Para que seja possível, de fato, libertar o ser humano é necessário repensar tudo aquilo que não entendemos como fator determinante à construção da sua identidade, porém sabemos que ela é constituída a partir de traços sociais que servem como guia, mas também como cárcere.

Antes de mais nada é importante entendermos o que é identidade e o que é liberdade. Identidade cunha-se de muitas ramificações, trazendo consigo uma leva imensurável de conceitos e discussões acaloradas. Atualmente, ouve-se muito por aí termos como identidade de gênero, mas não podemos esquecer das identidades que estão ligadas à classes sociais, econômicas, etnias, consumos, nacionalidades, sexualidades, dentre tantas outras. É identidade que não acaba mais. Mas para resumirmos o que é identidade, basta uma pequena analogia: Imagine um quebra cabeça com inúmeras peças soltas que quando conectadas uma a uma, criam o que chamamos de “eu”. Já a liberdade, que também não foge a regra dos seus inúmeros conceitos, pode ser considerado um grau de independência legítimo que um cidadão, um povo ou uma nação elege como valor supremo, como ideal. Porém, a liberdade que abordo aqui é com o viés da filosofia, que pode ser compreendida sob uma perspectiva que denota a ausência de submissão e de servidão, ou sobre outra perspectiva que é a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional.

O conflito ocorre quando percebemos que o nosso “eu” não é necessariamente a real expressão do que somos, mas um conglomerado de representações sistemáticas que se vale de inúmeras medidas externas a nós. Quer dizer, um punhado de identidades, impostas ou não, que nos segmentam e enquadram. Um guia e ao mesmo tempo uma prisão.

A maior concentração da dinâmica acima é representada e expressada pela normatiza heterossexual e nas sexualidades que desviam do imposto como guia social, como a homossexualidade. A orientação sexual desviante, ao mesmo tempo em que o auxilia a conduzir sua vida e seu senso de pertencimento social, o restringe. A libertação do individuo da norma heterossexual na sua vida sexual e romântica, não o dá de fato a liberdade tangível pois a sociedade é heteronormativa.

Michel Foucault diz que “ Acredito que ser gay não seja identificar aos traços psicológicos e às máscaras visíveis do homossexual, mas buscar definir e desenvolver um modo de vida”.

É reconfortante pensar que é possível expressar verdadeiramente quem se é em ambiente fechados, como em um grupo de amigos, no qual o direito de ser livre já foi conquistado, mas nos ambientes externos ou melhor, em sociedade, essa verdade não funciona na mesma dinâmica.

Judith Butler, diz que “Nós agimos como se ser homem ou ser mulher fosse efetivamente uma realidade interna ou algo que é simplesmente verdadeiro sobre nós, um fato sobre nós, uma realidade, é um fenômeno que esta sendo produzido e reproduzido o tempo todo, então dizer que gênero é performativo é dizer que ninguém é realmente um gênero de o início.”

A pergunta que nos veio a mente foi: A liberdade do eu é possível em um mundo normativo?

Estudos e pesquisas desenvolvidas durante anos, objetivando compreender a mente humana e o que constitui as normais sociais, trazem hoje a possibilidade de tangibilizar a liberdade total do eu, do grupo de amigos as segmentações normativas. Sabíamos que para libertar o humano seria necessário reavaliar tudo aquilo que, por vezes, não damos como fator importante à construção da identidade.

O conceito Corpo Sem Órgão, cunhado por Antonin Artaud e muito bem explorado por Gillers Deleuze e Félix Guattari, explica que a partir do momento de nossa concepção, no instante em que nascemos, nossos órgãos e nosso corpo tem finalidades especificas, para que assim seja possível que nos encaixemos na sociedade e que portanto, sejamos capazes de produzir o que ambiente precisa. A partir daí, ocorre a supressão de todas as possibilidades do que poderíamos ser, uma vez que nossos anseios e desejos, a nossa própria vida, são centralizados para um objetivo, uma meta, um fim que não é nosso, mas sim do senso comum. Portanto, a massa e as normativas, dia a dia vem roubando o seu corpo para fazer dele uma industria de produção de desejos e de uma vida mecânica. Na contra regra disto, os filósofos propõe que o corpo sem órgãos, que é o contrário do organismo, é contrário também à instrumentalização das nossas vidas para fins pré-determinados. Esse corpo, portanto, busca incansavelmente produzir novas realidades consideradas improdutivas, que enfrentam o status quo, que não se deixam ser adestradas.

Com base nessas argumentações, podemos perceber que só é possível nos expressarmos verdadeiramente e livremente se formos capazes de nos desatarmos dos nós de todas lógicas criadas para o nosso corpo, um corpo sem órgãos. Isso significa virar a chave da lógica do pensamento binário, que modificaria toda e qualquer normativa que envolva educação, economia, gênero, sexualidade, biologia, comunicação, sociedade.

Desta forma, uma pessoa não-binária encontraria em qualquer lugar um um produto do qual ela sentiria adequada em sua própria identidade, deixando de ser visto apenas como uma pequena questão de expressão, e tomando a real proporção que se tem, que é supervivência, de liberdade totalitária do “eu”.

A chave para essa mudança, para o poder de um corpo irrestrito, está ao alcance de todos. Como consegui-lá? Muita sede de revolução.

A liberdade totalitária do “eu” só será possível se colocarmos de lado, escondido em nossos armários, o corpo anestesiado que nos foi imposto. Existir não tem apenas uma finalidade como pensávamos em uma sociedade normativa, ela tem um meio e esse meio só pode surgir na fratura exposta do que de fato nos liberta e nos faz bem. Se é comer, mergulhar, dormir, viajar, fazer sexo, toca guitarra, bater palmas para o sol, pouco importa. O importante é que não estaremos mais expostos e obrigados a seguir uma lógica social.

“Sou um amante fanático da liberdade, considerando-a como o único espaço onde podem crescer e desenvolve-se inteligência, a dignidade e a felicidades dos homens (humanos).” – Mikhail Bakunin.

O questionamento que lhe deixamos é simples: O quanto você esta disposto a alcançar um corpo livre, um “eu” liberto e não ser o que te impõem?

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