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Fábrica Digital da Solidão

Nós, humanos, nunca fomos tão livres. As possibilidades de escolhas e a vasta variedade a ser escolhida nunca foi tão abundante. Carreira, lazer, entretenimento, consumo, lugares e pessoas. A vastidão de opções nos dá automaticamente o poder de trocar tudo o tempo todo, inclusive as pessoas. Mas entre as músicas que disseminam a apologia do só, por que a solidão não é algo maravilhoso e não constrói alicerces positivos na vida de cada humano? A felicidade estampada no rosto dos que pregam as relações efêmeras não ditam os bastidores repletos de vícios – inclusive de atenção – e desespero. A depressão, mal do século, caminha de mãos dadas com a ansiedade e tem reflexo consistente nas frustrações que são geradas quando o querer do outro já não é mais nosso, nem o nosso é do outro. Nós que pregamos pela liberdade, livre, leve e solta, não conseguimos lidar com a insustentável leveza do ser.

Bauman, um dos grandes sociólogos do mundo, dedicou parte de sua carreira a estudar e escrever sobre a finda tentativa humana de diminuir os laços e aumentar a fluidez de seus relacionamentos, seja com pessoas, objetos e experiências. Em Modernidade Líquida, Amor Líquido, Felicidade Paradoxal, Zygmunt situa o leitor neste caos contemporâneo, onde o ter é melhor que o ser, e onde ir é melhor do que ficar, sobre a perda de espaço e tempo que são reações do avanço tecnológico, a fragilidade perigosa dos laços humanos, a substituição do relacionamento pessoal pelo digital. O humano tornou-se um fabricante – em massa – da sua própria solidão.

Na minha época – o que me soa muito antigo, mas me agrada – não existia esse termo “estar em rede”, estávamos em comunidade. Existe uma diferença expressiva entre ambos. Comunidade precede o eu, o humano. Nasce-se em uma comunidade. Rede, ao contrário de comunidade, é feita e mantida viva por duas atividades diferentes, conectar e desconectar. Acredito que aqui começa a existir a quebra da importância dos laços humanos. Romper relacionamentos, desgostar de alguma coisa, deixar de pertencer a uma tribo, quando é no físico, olho no olho, torna-se quase sempre um evento traumático, e nós humanos, como diria Freud e Lacan, vamos dar prioridade quase sempre ao caminho contrário daquilo que nos afere dor e sofrimento. Em contrapartida, nutrimos nossas relações efêmeras digitalmente que alimentam de forma constante uma angustia secreta e silenciosa quando apertamos o delete ou somos deletados.

Em uma entrevista, Bauman cita uma conversa que teve com um “amigo”. Tal rapaz se gaba que conseguiu 500 “amigos” no Facebook em um único dia. Bauman por sua vez, diz que aos 86 anos não tem tudo isso de amigo e analisa que o significado de “amigo” para ele, Bauman, deve ser diferente do significado para o rapaz que se superioriza com base em sua conquista digital. Mas, nada de novo em compreender que conceitos e significados transitam o tempo, se adaptando e se reinventando com base nas necessidades de sua época. Porém, não se trata disso. Trata-se de cuidadosamente analisar que, neste processo de mudança simbólica, algo crucial se perdeu. Habilidades sociais básicas, necessárias para toda e qualquer interação humana, estão dia a dia sendo perdidas na rede. Qual é a maior consequência dessa facilidade em aceitar ou deletar as relações? A solidão e a sensação de abandono, os grandes medos nestes tempos de individualização.

Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não nos damos mais ao luxo de uma observação pausada daquilo que experimentamos. É necessário fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar. O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. Uma sociedade que está deitada na cama com a ansiedade, na qual reunir uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, para que no fim, o que realmente importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.

Os laços humanos são uma mistura de bênção e maldição.

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