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Quanto tempo o seu tempo tem?

Vivemos em tempos totalmente diferentes, apesar da similaridade universal das 24 horas por dia, 365 dias por ano, o tempo moeda de troca mais preciosa do mundo contemporâneo é singular e heterogênea para cada humano neste planeta. Acordamos, comemos, malhamos, socializamos, trabalhamos, saímos, dormimos, cada um ao seu tempo, mas todos nós com uma única similaridade, estamos sempre contra ele. Fator que causa ansiedade, inquietude, um senso de urgência de que o tempo é uma poupança que vive em débito constante.

Tudo passa rápido demais. Não damos conta das noticias que saem minuto a minuto, da tecnologia que cruzou o espaço físico e presencial, e tirou do tempo um atraso que nos permitia respirar, olhar com calma e com profundidade. Damos largas braçadas em um rio raso demais. Vivemos num estado de incompletude, uma vida de inúmeros “quase”.

Quase respondi todos os 148 emails que me chegaram nesta segunda-feira, quase fiz cinquenta minutos de crossfit sem olhar o celular, quase li o livro inteiro que comprei no mês passado, quase fiz uma hora de almoço, quase levei o cachorro para passear, quase assisti aquele filme, quase tomei uma taça de vinho, quase vivi e o tempo passou.

Diariamente se intensifica a simbiose homem maquina a fim de se desenvolver um leque imenso de produtos e serviços disponíveis para consumo com o intuito de gerenciar melhor o tempo, e com o tempo livre, por espontânea vontade continuar-se produzindo em prol do capitalismo. Nos fragmentamos sem poder desconectar, compartilhando o nosso tempo com o tempo de outras pessoas e em nenhum momentos estamos mais sozinhos. A noção de espaço se perdeu com o avanço do instantâneo. A percepção de hierarquia nas estruturas familiares, dadas pelo tempo de vida, se perdeu com o avanço tecnológico. Hoje, filho ensina o pai a utilizar serviços e produtos para melhor aproveitamento no tempo dedicado ao profissional, enquanto a dez anos atrás essa hierarquia era muito mais vertical do que horizontais e cenas como essas não eram tão frequentes.

O consumo do produto cultural, informativo e material, mudou tornando-se raso demais. Fato gerado pelo prisma de que o tempo é uma moeda que apenas se dá e não se recebe de volta. Tempo dedicado ao entretenimento, mesmo que esse hoje produza insumos informativos e que movimentem a economia, deve ser planilhado e usado com muita cautela.

Mas, das extensas leituras filosóficas às discussões fervorosas no bar sobre o tempo, o que de fato é o tempo? De acordo com o dicionário: tempo é substantivo masculino que traz a sensação de duração relativa das coisas que cria no ser humano a ideia de presente, passado e futuro; período contínuo no qual os eventos se sucedem. Já para o professor Luiz Alberto Oliveira, físico e cosmólogo, o tempo consiste de uma sucessão de fatos idênticos.

Porém, se o presente, este instante, o agora, o que de fato é o único momento que você tem tangível, surge apenas para virar passado, é possível compreender que o tempo é uma caminhada rumo à não-existência? Santo Agostinho – que pode-se criar até uma brincadeira maldosa sobre os intermináveis agostos – propõe que o tempo é uma criação da mente humana, porque é neste ambiente que se mantém a imagética tanto do passado como do presente e futuro, três tempos que não são vistos em outros lugares. O presente do passado que é a memória; o presente do presente, a intuição; o presente do futuro, a espera.

A criação do relógio mecânico foi mais revolucionário do que a criação do papel que mudou a memória, da fotografia que criou a imagem da não imagem, da pólvora que definiu nações. O relógio, aquele tic-tac incessante que nunca pare, nunca cala, moldou a sensação de tempo.

O presente é eterno e mutante ao mesmo tempo e para mim o tempo é a sensação de finitude.

Mas se o tempo é singular para cada um, o que o faz igual a todos nós?

Em 1919 a expectativa do homem era de uma média de cinquenta anos de vida, atualmente podemos estimar a casa dos oitenta, mas com o avanço das tecnologias e das teorias cientificas do transumano ou rotulado também como pós-humano, que chegam a pautar a ressignificação da morte, extensão da consciência, ou mesmo alcançar as máximas potencialidades em termos de desenvolvimento humano, qual é a finitude do tempo?

A morte é, atualmente, o maior nivelador social. Mas única verdade que temos é a de, não importa o quanto procrastinemos a morte, o nosso tempo tem um fim.

No prisma de uma vida corrida, quanto tempo seu tempo ainda tem?

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